Nunca fomos tão livres. Nunca estivemos tão sós.

Mulher só numa sociedade moderna em que a solidão parece transformar-se em regra

O amor romântico não é uma constante da natureza humana. É uma invenção histórica e relativamente recente. Durante a maior parte da existência humana, o casal não era uma escolha afetiva mas uma unidade de sobrevivência económica, territorial e reprodutiva. A família nuclear tal como a conhecemos, enquanto projeto comum com dois adultos e respectivos filhos, é em grande medida um produto do século XIX e da industrialização europeia. A ideia de que se deve casar por amor, e só por amor, é mais recente ainda.

Compreender esta realidade não é um exercício de nostalgia. É o ponto de partida para perceber o que está a acontecer, porque nunca na história humana esperamos tanto de uma relação romântica.

Portugal tem hoje uma das taxas de divórcio mais altas da Europa. Mais de metade dos casamentos terminam antes dos quinze anos. E por cada divórcio registado, há um número expressivo de relações que sobrevivem apenas na forma, sem intimidade real, sem projeto comum e sem desejo.

O que está a acontecer?


O indivíduo como projeto

Gilles Lipovetsky descreveu com precisão o que a modernidade tardia produziu: um indivíduo centrado em si mesmo, orientado para a experiência, para a realização pessoal, para a intensidade do presente. A Era do Vazio não é um lamento moralista, é um diagnóstico. Vive-se numa cultura que elevou a autorrealização individual a imperativo moral superior.

Charles Taylor aprofunda este ponto: a autenticidade tornou-se o valor central do sujeito contemporâneo. Ser fiel a si mesmo passou a ser um dever. E o compromisso — que implica necessariamente ceder, adaptar-se, abdicar de outras possibilidades — entra em contradição estrutural com esse dever. Ficar numa relação difícil já não é virtude. Pode ser, lido por esta cultura, uma forma de traição a si próprio.

Alain Ehrenberg fecha o triângulo. Quando o indivíduo é inteiramente responsável pela sua vida, o fracasso relacional deixa de ser azar ou destino e passa a ser uma falha pessoal. A depressão moderna, argumenta Ehrenberg, é em larga medida o preço do imperativo de autonomia. As relações carregam esse peso. Quando falham, falha o “eu”. E isso torna o abandono preventivo (sair antes que doa demasiado) uma estratégia psicologicamente compreensível.

É aqui que Roger Scruton oferece um contraponto filosófico muito interessante e maduro. Em Sexual Desire, Scruton argumenta que o desejo erótico humano não é um impulso biológico bruto — é uma experiência interpessoal que exige reciprocidade, comprometimento e forma cultural. Quando a cultura deixa de fornecer essa forma, o desejo não se liberta: desestrutura-se. Torna-se ansioso, compulsivo e cronicamente insatisfeito. Mas é noutro ponto que Scruton é mais certeiro ainda: influenciado por Aristóteles, argumenta que a felicidade não se persegue diretamente. É o subproduto de uma vida vivida com comprometimento, lealdade e virtude. Quem entra numa relação perguntando “isto faz-me feliz?” já colocou a questão de forma errada. Numa cultura que elevou a felicidade pessoal a objetivo supremo e mensurável, as relações tornam-se permanentemente avaliadas contra um padrão que nenhuma relação real consegue cumprir. Não é apenas um problema estrutural ou cultural, é um problema conceptual.


A dimensão mercantil do amor

A socióloga Eva Illouz documentou algo perturbador: o capitalismo não se limitou a transformar o trabalho e o consumo. Colonizou a própria gramática do amor. As relações românticas passaram a ser vividas com a lógica do mercado — avaliação, otimização, custo de oportunidade. As plataformas de encontros não criaram esta mentalidade, mas tornaram-na literal: um catálogo infinito de parceiros potenciais, algoritmos de compatibilidade, a ilusão de que existe sempre uma opção melhor a um scroll de distância.


A revolução e as suas contradições

A transformação do papel da mulher nas últimas cinco décadas é um dos factos sociais mais significativos da modernidade.

Não está em causa a emancipação feminina, que é irreversível, necessária e justa. Está em causa o que acontece quando uma transformação desta magnitude ocorre mais depressa do que a capacidade coletiva de a integrar. As mulheres transformaram-se profundamente.

A mulher de hoje acumula carreira, maternidade, gestão doméstica e, frequentemente, a carga emocional invisível da relação, aquilo que a psicologia designa por emotional labor. Entra na relação com autonomia económica e identidade própria construída fora do casal. Já não precisa de ficar por razões de sobrevivência. E isso muda profundamente a geometria do casal.

Do lado masculino, o diagnóstico dominante tem sido o de que os homens precisam de mudar; tornarem-se mais comunicativos, mais presentes, mais domésticos. E em parte é verdade: a violência no lar, a ausência emocional e o abandono das responsabilidades parentais não são masculinidade — são disfunção, e devem ser nomeadas como tal.

Mas a narrativa foi longe demais. Confundiu masculinidade com patologia. E produziu algo paradoxal: uma geração de homens desorientados, sem modelos coerentes, sem identidade forte e responsável, sem uma noção clara de virtude.

A investigação em psicologia evolucionista e em estudos de atração é suficientemente robusta neste ponto: as mulheres continuam, transculturalmente, a preferir parceiros com traços de masculinidade marcada: assertividade, proteção, presença, capacidade de liderança. A atração não se reconstrói por decreto cultural. E muitas mulheres vivem hoje uma tensão genuína e raramente dita em voz alta: querem um parceiro emocionalmente disponível e presente e querem também um homem que não precise de validação constante, que surpreenda, que lidere. Estas expectativas não são contraditórias em abstrato. Mas são muito difíceis de encarnar na mesma pessoa, no mesmo dia, ou sob pressão.

Há ainda um dado que o debate público sistematicamente ignora: os homens são a esmagadora maioria das vítimas de acidentes de trabalho mortais, dos sem-abrigo, do abandono escolar precoce e dos suicídios. Saem-se pior em praticamente todos os indicadores de saúde mental e longevidade. A crise masculina é real e não se resolve pedindo aos homens que se tornem menos masculinos. Resolve-se distinguindo, com precisão e sem ideologia, o que vale a pena transformar do que vale a pena preservar.


O que a biologia e a psicologia nos dizem

Os humanos são animais que se vinculam. Bowlby demonstrou-o. Não somos feitos para a liquidez, somos feitos para o apego seletivo, para a dependência emocional com uma figura de referência. A modernidade não apagou esta necessidade. Apenas criou um ambiente profundamente hostil à sua satisfação.

O problema aprofunda-se quando consideramos que os estilos de vinculação se formam na infância e se replicam nas relações adultas. Falamos de apego ansioso, apego evitante, padrões de conflito que os próprios parceiros raramente conseguem nomear, muito menos resolver. Décadas de investigação de John Gottman mostram que o que separa os casais estáveis dos que colapsam não é a ausência de conflito, mas uma desproporção saudável entre conflito e interações positivas. E reparar exige literacia emocional. Que ninguém ensina sistematicamente.


O custo para os mais frágeis

No final, são as crianças que pagam a fatura mais pesada.

A investigação em psicologia do desenvolvimento é inequívoca: a instabilidade familiar crónica, o conflito interparental não resolvido e as ruturas relacionais repetidas têm impacto mensurável no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças. Aquela espécie de guerra fria que muitas vezes o precede e sucede ao divórcio. É crescer num ambiente onde a relação íntima entre adultos se associa, desde cedo, a sofrimento, imprevisibilidade e perda.

A tentação cultural recente de tornar a figura paterna opcional não encontra suporte na ciência. A relação mãe-filho e pai-filho, quando segura e consistente, não é substituível. Não por razão ideológica, mas porque são as relações mais precoces, as mais intensas, e as que ocorrem no período de maior plasticidade neurobiológica. O pai, em particular, tem funções desenvolvimentais específicas e distintas das da mãe: na regulação do risco, na individuação da criança, na transmissão de uma relação com o mundo exterior. Quando esta presença falha ou se torna intermitente, a criança perde algo que nenhuma outra figura compensa inteiramente.

E há um detalhe que a estatística não captura: estas crianças tornam-se adultos. Chegam às relações com os mesmos padrões por resolver, a mesma dificuldade em confiar, a mesma baixa tolerância à frustração que vivenciaram em casa. Reproduzem, muitas vezes inconscientemente, aquilo que conhecem.

Nunca fomos tão livres. E raramente a liberdade custou tão caro — a nós, e sobretudo a eles.

“Navegar pelas complexidades e contradições das relações modernas é um desafio partilhado por muitos. Caso queira partilhar alguma reflexão ou esclarecer qualquer questão sobre como a psicoterapia aborda estes temas, encontra os meus dados de contacto aqui.”

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