Terapia Focada na Transferência

Otto F. Kernberg
Otto F. Kernberg

Há modelos psicoterapêuticos que se centram em sintomas. E há aqueles que procuram ir mais além — destapar a estrutura mais profunda que organiza a forma como alguém se experiencia a si e aos outros. A Terapia Focada na Transferência (TFP, do inglês Transference-Focused Psychotherapy) pertence claramente à segunda categoria.

Desenvolvida por Otto Kernberg e sistematizada por Clarkin, Yeomans, Caligor e colaboradores ao longo de décadas, a TFP nasceu como resposta clínica rigorosa à Perturbação Borderline de Personalidade (PBP). Mas o seu âmbito foi progressivamente alargado: hoje é uma psicoterapia transdiagnóstica, aplicada ao espectro das perturbações de personalidade em diferentes níveis de gravidade, sobretudo apresentações borderline, narcísicas e paranóides.

A maioria das psicoterapias centra-se nos seus pensamentos, comportamentos, narrativas ou estratégias de regulação emocional. A TFP privilegia a utilização clínica da relação terapêutica— através do que acontece entre o paciente e o psicólogo clínico/psiquiatra, em tempo real, sessão a sessão.

A premissa central é simples, mas exigente: as dificuldades que o paciente tem consigo próprio e nas relações — instabilidade, polarização afetiva, distorção da perceção dos outros —manifesta-se na relação terapêutica. E é aí que podem ser identificadas, nomeadas, e gradualmente interpretadas e transformadas. Este fenómeno — a transferência — é o núcleo técnico e teórico de toda a abordagem.

A TFP baseia-se na teoria das relações de objeto de Melanie Klein e outros psicanalistas, depois atualizada e operacionalizada por Otto Kerneberg e seguidores. O conceito central é o de identidade: a estrutura psicológica que organiza a experiência de si próprio e dos outros de forma coerente, estável e integrada ao longo do tempo.

Nas perturbações de personalidade, esta estrutura está comprometida. O mecanismo central é a predominância do afeto negativo intenso que ativa defesas dissociativas, sobretudo a clivagem, ou seja, a incapacidade de integrar representações positivas e negativas de si e dos outros numa experiência unificada.

O resultado clínico é bem conhecido: o outro é idealizado ou desvalorizado, nunca as duas coisas ao mesmo tempo. O self é grandioso ou desprezível, conforme o estado afetivo do momento. As relações são vividas em termos absolutos — e o psicólogo clínico/psiquiatra não é exceção.

A TFP utiliza precisamente esta dinâmica. O afeto emerge na relação terapêutica; o psicólogo clínico contém-no, nomeia-o e trabalha-o através de um processo interpretativo estruturado em quatro níveis progressivos de profundidade. O processo de interpretação em TFP não é uma técnica pontual — é um processo contínuo, repetido, adaptado ao estado afetivo do paciente. Este trabalho não segue uma sequência rígida. É um processo vivo, recursivo, que exige da parte do psicólogo clínico uma presença técnica e emocional muito exigente.

Na TFP, o que o psicólogo clínico sente é informação clínica. Não é ruído a eliminar — é um sinal a conter e utilizar. Este uso técnico da contratransferência é um dos elementos que distingue a TFP de abordagens mais manualizadas e protocolizadas. A relação terapêutica não é o contexto do tratamento — é o seu instrumento principal.

A TFP não é para todos os contextos nem para todos os profissionais. Requer formação específica, supervisão continuada e uma tolerância elevada à intensidade afetiva. É especialmente indicada para pacientes com: perturbações de personalidade do Cluster B (borderline, narcísica, histriónica, antissocial com características menos graves); perturbações de personalidade do Cluster A com componente paranoide ou esquizoide significativo; apresentações de nível de organização neurótico com conflitualidade interpersonal persistente; quadros mistos com comorbilidade depressiva ou ansiosa em contexto de patologia de personalidade.

A avaliação inicial é um constituinte crítico: a TFP utiliza a Entrevista Estrutural para determinar o nível de organização de personalidade — o que, por sua vez, define a estrutura do contrato terapêutico, a profundidade da intervenção e o prognóstico.

A TFP é, possivelmente, a abordagem que mais atenção dedica à estrutura antes de começar o trabalho clínico. O contrato terapêutico não é burocracia — é parte do tratamento. Para pacientes com organização borderline mais severa, o contrato pode incluir cláusulas sobre comportamentos autodestrutivos, uso de substâncias e gestão de crises. Esta estrutura cria o framework dentro do qual a intensidade afetiva pode emergir com maior segurança.

Em resumo, a TFP oferece algo raro no panorama psicoterapêutico: uma teoria coerente da patologia da personalidade, um método de avaliação maduro, um processo de tratamento tecnicamente explicitado e evidência empírica acumulada ao longo de décadas. Mas o que a torna verdadeiramente singular é a disposição para suster a intensidade da relação terapêutica, sem a anular nem ser engolido por ela. Para quem trabalha com patologia de personalidade, a TFP, estou em crer, é fundamental. Se procura acompanhamento psicológico, pode conhecer a minha abordagem clínica.

Uma nota final para o contexto português: há uma quase ausência deste modelo terapêutico no ensino universitário e na prática clínica, situação que naturalmente lamento. E que, espero, possa vir a mudar. A bem da qualidade do trabalho clínico em saúde mental e, acima de tudo, a bem daqueles que sofrem com este tipo de perturbação mental.

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