
A maior parte das pessoas escolhe psicólogo do mesmo modo que escolheria um restaurante numa cidade desconhecida: pela fotografia, pelo preço, ou porque uma amiga recomendou. Não é uma crítica, é apenas compreensível, porque não existe um consenso público claro sobre o que realmente distingue um bom acompanhamento psicológico de um mau, ou mesmo de um ilegal. Este artigo procura dar-lhe esse critério, com os passos concretos que pode seguir antes de agendar a primeira consulta.
Primeiro critério: confirmar que é, de facto, psicólogo
Em Portugal, “psicólogo” é uma profissão regulada por lei desde 2008 (Lei n.º 57/2008), o que significa que só pode usar este título quem estiver inscrito como membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Usar o título sem essa inscrição constitui, segundo a própria Ordem, crime de usurpação de funções. Existem atualmente cerca de vinte e quatro mil psicólogos inscritos no país.
Este passo é simples e demora menos de um minuto: a OPP disponibiliza um diretório público onde qualquer pessoa pode pesquisar pelo nome ou pelo número de cédula profissional do psicólogo e confirmar a sua situação. É um passo que quase ninguém dá, mas que devia ser tão automático como verificar as avaliações de um restaurante, sobretudo porque o mercado de “terapeutas”, “coache s emocionais” ou “conselheiros” sem qualquer formação regulada tem vindo a crescer, e nem sempre é fácil, à primeira vista, distinguir um psicólogo clínico de alguém que se apresenta em terminologia parecida sem o ser.
Segundo critério: o título de especialista, não apenas o registo de base
Estar inscrito na Ordem é a condição legal mínima para exercer, mas não diz nada sobre a experiência ou aprofundamento numa área clínica específica. Para isso existe o título de especialista, atribuído pela própria OPP a psicólogos que comprovem experiência profissional relevante, formação especializada e supervisão clínica continuada. Desde janeiro de 2024, por via do Decreto-Lei n.º 5/2024, este título passou também a ser reconhecido formalmente pelo Serviço Nacional de Saúde, o que lhe deu um peso oficial que antes não tinha de forma tão clara.
Na prática, perguntar diretamente “é especialista, e em que área” é uma pergunta legítima e informativa, não uma falta de educação. Um psicólogo sério não se incomoda com ela.
Terceiro critério: a abordagem terapêutica, e se está disposto a explicá-la
Existem várias correntes de psicoterapia, TCC, psicodinâmica, ACT, sistémica, entre outras, e nenhuma delas é automaticamente superior às outras para todos os problemas. O que distingue um bom profissional não é pertencer à escola “certa”, é conseguir explicar, em linguagem simples, porque está a propor determinada abordagem para o seu problema específico, e que evidência científica sustenta essa escolha. Se pedir esta explicação e receber apenas vagas generalidades ou um discurso que soa a marketing, é um sinal de alerta.
Vale sublinhar algo; a investigação mostra de forma consistente que a aliança terapêutica (a qualidade da relação entre paciente e psicólogo), é um dos fatores mais determinantes no sucesso da psicoterapia, mais do que a escola teórica em si. Isto não significa, porém, que “sentir-se bem” com alguém baste como critério de escolha; significa que a relação terapêutica e o rigor técnico não são objetivos concorrentes, são dois critérios que se deve exigir em conjunto, não um substituto do outro.
Quarto critério: experiência real com o seu problema específico
Um psicólogo clínico generalista pode ser adequado para muitas situações, mas quando o problema é específico, uma fobia particular, uma perturbação alimentar, uma perturbação da personalidade, faz diferença perguntar diretamente que experiência e formação adicional o profissional tem nessa área concreta. É informação que o paciente tem o direito de perguntar antes de decidir.
Sinais de alerta a levar em conta
Alguns sinais que devem, no mínimo, gerar mais perguntas antes de avançar: recusa ou desconforto em identificar o número de cédula profissional ou o título de especialista; promessas de resultados rápidos e garantidos para problemas complexos; ausência de qualquer explicação sobre o método de trabalho; limites profissionais pouco claros, como contacto informal excessivo fora das sessões; e discurso que desvaloriza sistematicamente outras formas de ajuda, incluindo a psiquiatria, quando esta é clinicamente indicada.
Como pesquisar na prática
Além do diretório oficial da OPP, existem outros recursos úteis: o site Encontre uma Saída, também gerido pela Ordem, permite localizar psicólogos por área geográfica e área de intervenção entre milhares de profissionais georreferenciados. Para quem procura garantia adicional de qualificação reconhecida a nível europeu, existe ainda o certificado EuroPsy, atribuído a psicólogos que cumprem um conjunto de padrões formativos comuns a vários países europeus.
Em resumo
Escolher bem um psicólogo clínico não exige nenhum conhecimento técnico avançado, exige apenas fazer as perguntas certas antes da primeira consulta: está inscrito na Ordem, e pode confirmá-lo? Tem título de especialista, e em que área? Qual a abordagem que propõe, e porquê, para o meu caso? Que experiência tem com problemas como o meu? A relação terapêutica importa, e importa muito, mas funciona melhor como complemento a estas respostas, nunca como substituto delas.
Referências
Lei n.º 57/2008, de 4 de setembro. Estatuto da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. Apoio aos Utilizadores de Serviços de Psicologia. https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/apoio_utente
Ordem dos Psicólogos Portugueses. Diretório de Psicólogos/as. https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/membros
Ordem dos Psicólogos Portugueses. Título de psicólogo especialista atribuído pela OPP passa a ser reconhecido pelo SNS. https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/4965
Decreto-Lei n.º 5/2024. Diário da República.
YMCA Portugal (2021). Preciso de um psicólogo. E agora? https://www.ymcaportugal.org/post/preciso-de-um-psic%C3%B3logo-e-agora
EuroPsy Portugal. Registo Europeu de Psicólogos. https://www.europsy.pt/copia-europsy
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