Tudo Normal nos Exames e Continua com Tonturas? O Que Pode Estar a Acontecer

Tonturas persistentes…acordar, caminhar até à cozinha ou circular por um corredor de supermercado e sentir que o chão foge, que o ambiente flutua ou que a cabeça pesa de uma forma inexplicável são experiências profundamente desgastantes. Quando estes sintomas se prolongam por semanas ou meses, o percurso habitual envolve uma peregrinação exaustiva por consultas de otorrinolaringologia, neurologia e urgências hospitalares, desde centros clínicos privados a grandes unidades hospitalares de referência na região Norte. Realizam-se ressonâncias magnéticas, TACs cerebrais, testes calóricos e análises clínicas profundas. Quando o resultado surge invariavelmente como “normal”, o alívio de saber que não existe uma lesão grave ou um tumor é imediato, mas rapidamente substituído por uma frustração esmagadora: se os exames estão todos normais, porque é que a tontura continua a acontecer todos os dias?

O Conflito Entre Exames Limpos e Sintomas Reais

Esta discrepância entre exames limpos e a persistência de um sintoma físico muito real é o cenário clássico de uma perturbação vestibular funcional crónica, conhecida na literatura científica como Vertigem Postural-Percetual Persistente (PPPD). O erro mais comum é assumir que, se o órgão do equilíbrio no ouvido interno está estruturalmente intacto e o cérebro não apresenta lesões anatómicas, o sintoma é imaginário ou “psicológico”. A investigação clínica contemporânea demonstra o oposto: o problema não está numa lesão visível, mas sim na forma como o sistema nervoso central passou a processar a informação sensorial após um evento desencadeante inicial (como uma vertigem posicional, uma enxaqueca ou um episódio de pânico agudo).

É fundamental distinguir este quadro de uma perturbação de pânico clássica: enquanto no pânico a tontura surge de forma episódica e pontual no meio de uma constelação vasta de sintomas autonómicos (taquicardia, falta de ar e medo de desmaiar), na PPPD o problema central é o bloqueio mecânico e constante do sistema de equilíbrio, persistindo de forma diária e crónica mesmo quando a pessoa está emocionalmente calma.

O Mecanismo da Hipervigilância e a Dependência Visual

O mecanismo central deste quadro assenta numa alteração das estratégias posturais. Habitualmente, o corpo humano confia em três fontes principais para manter a estabilidade: o sistema vestibular no ouvido interno, a visão e a proprioceção (os recetores nos pés e músculos). Quando ocorre um desajuste, o cérebro pode entrar num estado de hipervigilância, passando a depender excessivamente dos estímulos visuais em detrimento dos sinais vestibulares reais. É por esta razão que os sintomas agravam de forma drástica em ambientes visualmente complexos, com padrões repetitivos no chão, corredores estreitos de superfícies comerciais ou ecrãs em movimento. O sistema de controlo postural fica, na prática, bloqueado num modo de alarme constante, interpretando micro-movimentos normais como ameaças de queda iminente.

O Papel da Psicologia Clínica na Recuperação das Tonturas Crónicas

Compreender que o problema não é estrutural, mas sim funcional, muda radicalmente a perspetiva sobre o tratamento necessário. Uma vez excluída a patologia orgânica por via médica, a abordagem eficaz exige uma intervenção multidisciplinar dividida em duas frentes complementares: por um lado, a reabilitação vestibular (fisioterapia especializada) foca-se na habituação física e na recalibração do reflexo vestíbulo-ocular; por outro, a psicologia clínica baseada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) atua como um treino neurocomportamental estrito e não como psicoterapia exploratória. O seu papel cinge-se a desmantelar os comportamentos de evitamento através de exposições graduais — utilizando, em contextos avançados e sob rigorosa avaliação médica, ferramentas como a Realidade Virtual (VRET) para simular ambientes visuais complexos de forma segura — e a treinar a interrupção da hipervigilância somática. Através da regulação autonómica e do redirecionamento atencional, o objetivo é quebrar o ciclo crónico de alerta, devolvendo a plasticidade adaptativa a um sistema de equilíbrio que aprendeu um padrão rígido de defesa.

Referências Científicas

  1. Staab, J. P., et al. (2017). Diagnostic criteria for persistent postural-perceptual dizziness (PPPD): Consensus document of the committee for the Classification of Vestibular Disorders of the Bárány Society. Journal of Vestibular Research, 27(4), 191–208. (Define os critérios clínicos oficiais da perturbação e a sua classificação funcional entre a neurologia e a psiquiatria)
  2. Holle, D., et al. (2015). Persistent postural-perceptual dizziness: A psychiatric perspective on a neurological-otological diagnosis. Nervenarzt, 86(7), 834–840. (Explora especificamente a interface entre os sintomas vestibulares crónica-funcionais, a ansiedade e o papel das intervenções psicoterapêuticas)
  3. Edelman, S., et al. (2012). Cognitive behavior therapy for persistent postural-perceptual dizziness [Clinical Trial Evaluation]. Journal of Psychosomatic Research, 73(5), 385–393. (Evidência empírica publicada no Journal of Psychosomatic Research sobre a eficácia da Terapia Cognitivo-Comportamental na redução dos comportamentos de evitamento e incapacidade)
  4. Popkirov, S., Staab, J. P., Stone, J., et al. (2018). Persistent postural-perceptual dizziness (PPPD): a common, characteristic and treatable cause of chronic dizziness. Practical Neurology, 18(1), 5–13. (Guia prático para médicos e clínicos sobre o diagnóstico diferencial e tratamento multidisciplinar)

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