Psicoterapia Online ou Presencial: Qual Escolher?

Desde a pandemia, a psicoterapia online deixou de ser uma excecionalidade e passou a ser uma opção comum, ao lado da consulta presencial tradicional. A pergunta sobre qual escolher já não é apenas prática, é também uma pergunta sobre eficácia, e as respostas disponíveis nem sempre são tão simples quanto parecem à primeira vista.

O que mostra a investigação científica

A generalidade dos estudos comparativos publicados nos últimos anos aponta para uma conclusão relativamente consistente: em ensaios clínicos controlados, a psicoterapia à distância, feita por videochamada em tempo real, produz resultados estatisticamente equivalentes à presencial no tratamento da depressão, da ansiedade e do stress pós-traumático. Alguns destes estudos incluem ainda uma medida específica de aliança terapêutica, a qualidade da relação entre paciente e psicólogo, e encontram também aqui valores comparáveis entre as duas modalidades.

Estes resultados são reais e vêm de investigação séria, mas convém olhar para eles com algum cuidado antes de os aplicar automaticamente a qualquer situação. Os ensaios clínicos que sustentam esta equivalência funcionam, na sua maioria, com amostras de pacientes que aceitaram participar num estudo estruturado, com um número limitado de sessões e objetivos definidos antecipadamente, num período de acompanhamento geralmente curto. Isto é diferente de um acompanhamento clínico real, sem prazo definido, sobretudo quando o trabalho envolve processos mais profundos, mais longos, ou situações em que os sinais não verbais mais subtis, o modo como alguém se instala na cadeira, hesita antes de falar, ou reage com o corpo antes de reagir com palavras, fazem parte do material clínico relevante. Um ecrã, mesmo de boa qualidade, filtra sempre uma parte desta informação.

Uma perspetiva clínica honesta

É por esta razão que, na prática clínica, a consulta presencial continua a ser preferível sempre que possível. Não porque a investigação sobre equivalência estatística esteja errada, mas porque a experiência de sala, a presença partilhada no mesmo espaço físico, continua a oferecer algo que os estudos, focados em medidas de sintomas e questionários de aliança terapêutica, não captam com facilidade. É uma diferença difícil de quantificar num ensaio clínico, mas que muitos psicólogos com prática presencial continuada continuam a notar.

Isto não torna a modalidade online inválida ou de segunda categoria. Torna-a, sobretudo, a resposta certa para uma razão específica: a necessidade prática de acesso, e não a primeira escolha quando existe alternativa presencial genuinamente disponível.

Quando o online faz sentido genuíno

Há situações em que a consulta online não é um compromisso, é simplesmente a única forma sensata de manter o acompanhamento. A mais comum é viver fora do país e querer continuar a trabalhar com um psicólogo em português, mantendo a familiaridade cultural e linguística sem interrupção do processo terapêutico já em curso. Outras situações incluem mobilidade reduzida, residência em zonas do país sem oferta local de determinada especialização, horários profissionais muito rígidos que tornam impraticável a deslocação regular, ou simplesmente a fase inicial de contacto com a psicoterapia, em que a redução de barreiras pode ser decisiva para que a pessoa dê o primeiro passo.

Nestes casos, a pergunta relevante deixa de ser “o online é tão bom como o presencial”, e passa a ser “o online, sendo a opção real e disponível, é claramente melhor do que não ter acompanhamento nenhum”. E a resposta a esta segunda pergunta é, quase sempre, sim.

Em resumo

A investigação científica mostra equivalência estatística entre psicoterapia online e presencial na maioria das perturbações comuns, medida em ensaios clínicos controlados e de curta duração. A experiência clínica direta, no entanto, continua a apontar para uma vantagem real da consulta presencial, sobretudo em processos mais longos e profundos, ainda que essa vantagem seja difícil de captar em números. Na prática, a melhor recomendação é simples: escolha presencial sempre que a tiver disponível de forma genuína, e recorra ao online sem hesitação quando for essa a única forma real de manter o acompanhamento, porque nesse caso a alternativa não é presencial, é não ter apoio nenhum.


Referências

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Shaker, A. A., Austin, S. F., Sørensen, J. A., Storebø, O. J., & Simonsen, E. (2023). Telehealth psychotherapy versus in-person care: A systematic review and meta-analysis. JMIR Mental Health, 10, e44790. https://mental.jmir.org/2023/1/e44790

Krzyżaniak, N., Greenwood, H., Stewart, S., et al. (2024). Telehealth-delivered psychotherapy for anxiety: A meta-analysis. Journal of Telemedicine and Telecare, 30(1), 45-56.

Behavioral Health News (2024). Telehealth Versus Face-to-Face Therapy for Treating Anxiety: Evidence-Based Considerations for Clinicians. https://behavioralhealthnews.org/telehealth-versus-face-to-face-therapy-for-treating-anxiety-evidence-based-considerations-for-clinicians/

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