
É uma pergunta que quase todos os pacientes fazem, geralmente logo na primeira ou segunda consulta, e a resposta honesta é sempre a mesma: depende da gravidade do problema, da abordagem utilizada, e também, na prática real e não apenas na teoria, da disponibilidade financeira para manter o processo. Ainda assim, é possível dar uma orientação concreta, apoiada em investigação e na experiência clínica do dia a dia.
O que diz a investigação sobre número de sessões
A ideia de que existe uma relação entre o número de sessões e a probabilidade de melhoria clínica tem décadas de investigação por detrás. O estudo de referência nesta área, conduzido por Howard e colegas em 1986, mostrou que cerca de metade dos pacientes apresentava melhoria percetível entre a oitava e a décima sessão, e que essa percentagem subia para perto de três quartos por volta da vigésima sexta sessão. Revisões mais recentes desta relação apontam para uma janela semelhante: entre treze e dezoito sessões para que metade dos pacientes atinja um resultado clinicamente satisfatório.
Estes números não são uma regra fixa, e a própria comunidade científica discute até que ponto esta curva reflete verdadeiramente o processo terapêutico individual ou é, em parte, um efeito estatístico de agregação, uma vez que os pacientes que respondem mais rapidamente tendem a terminar mais cedo, o que por si só cria a aparência de uma curva com retornos decrescentes. Um modelo alternativo, chamado “nível suficientemente bom”, propõe que cada pessoa termina o tratamento no momento em que sente ter atingido uma melhoria que já lhe é suficiente, e que esse momento varia genuinamente de pessoa para pessoa, não seguindo uma curva populacional única.
Uma das diretrizes clínicas internacionais mais usadas como referência, do National Institute for Health and Care Excellence do Reino Unido, recomendam para a Terapia Cognitivo-Comportamental, na depressão e nas perturbações de ansiedade mais comuns, um número de sessões que ronda tipicamente as doze a dezasseis, podendo chegar a mais nos quadros mais graves. Os próprios manuais de referência que sustentam os protocolos de TCC apontam para números semelhantes: o protocolo de Barlow e Craske para a perturbação de pânico e a agorafobia, situa-se tipicamente entre as onze e as quinze sessões. É um número que se aproxima bastante do que a experiência clínica direta também sugere.
Para os quadros mais graves, a literatura psicodinâmica de referência, nomeadamente a obra de Gabbard sobre psicoterapia psicodinâmica de longo prazo, descreve precisamente este tipo de tratamento como um processo medido em anos, não em semanas ou meses, e a investigação sobre perturbações da personalidade confirma esta necessidade: estudos como os de Bateman e Fonagy sobre hospitalização parcial psicanaliticamente orientada mostram ganhos que se mantêm e continuam a consolidar-se num seguimento de dezoito meses, e projetos de investigação de mais longo prazo, como o Ullevål Personality Project, mostram que pacientes com perturbações da personalidade mais graves continuam a melhorar anos depois do início do tratamento, com diferenças relevantes entre grupos a emergir apenas entre o terceiro e o sexto ano de seguimento.
Uma orientação prática, além dos números de referência
Na prática clínica do dia a dia, valem geralmente estas referências: o protocolo habitual em Terapia Cognitivo-Comportamental situa-se entre as doze e as dezoito sessões, mas este número raramente é rígido, e ajusta-se com frequência à disponibilidade financeira real de cada pessoa, que nem sempre permite manter esse número completo. Nas perturbações mais comuns, como quadros de ansiedade ou de humor sem grande complexidade, já se torna possível observar mudança significativa com um número mais reduzido, à volta de oito sessões, o que pode ser um objetivo razoável quando os recursos disponíveis são mais limitados.
A situação muda substancialmente quando o quadro clínico é mais grave, ou quando existe historial psiquiátrico marcado. Nestes casos, o acompanhamento deixa de ser pensado em semanas ou meses e passa a ser pensado a longo prazo, com um mínimo realista de seis meses, podendo prolongar-se por anos, ainda que muitas vezes com sessões cada vez mais espaçadas no tempo à medida que a estabilidade se consolida.
Porque este número nunca é fixo à partida
Nenhum psicólogo consegue, com honestidade, dizer com exatidão na primeira consulta quantas sessões vão ser necessárias. O que pode e deve fazer é dar uma estimativa realista com base no quadro apresentado, e depois ir ajustando essa estimativa à medida que o processo avança e a evolução real se torna visível. Se a meio do processo sentir que o número inicialmente previsto já não corresponde à situação, seja porque a evolução está a ser mais rápida ou mais lenta do que o esperado, é legítimo e importante voltar a discutir isso abertamente com o profissional.
Vale ainda referir, como abordado noutro artigo deste blog sobre o custo da psicoterapia em Portugal, que a limitação financeira é uma condicionante real para muitas pessoas, e que um plano de tratamento pensado à medida dessa limitação, com objetivos mais focados e um número de sessões reduzido mas bem definido, é preferível a não procurar ajuda de todo.
Em resumo
Não existe um número universal de sessões de psicoterapia. Como orientação prática, entre oito e dezoito sessões costuma bastar para problemas comuns e sem grande complexidade, dependendo da abordagem e da disponibilidade da pessoa, enquanto perturbações mais graves ou com historial psiquiátrico relevante exigem um compromisso de mais longo prazo, medido em meses ou até anos. O número certo para cada pessoa só se torna claro ao longo do próprio processo, e faz parte do trabalho de um bom acompanhamento ir ajustando essa estimativa com honestidade.
Referências
Howard, K. I., Kopta, S. M., Krause, M. S., & Orlinsky, D. E. (1986). The dose-effect relationship in psychotherapy. American Psychologist, 41(2), 159-164. https://i-cbt.org.ua/wp-content/uploads/2017/11/Howard-dose_effect-psychotherapy-1986.pdf
Hansen, N. B., Lambert, M. J., & Forman, E. M. (2002). The psychotherapy dose-response effect and its implications for treatment delivery services. Clinical Psychology: Science and Practice, 9(3), 329-343. https://clinica.ispa.pt/sites/default/files/41._the_psychotherapy_dose-response_effect_a.pdf
Barkham, M., Connell, J., Stiles, W. B., Miles, J. N. V., Margison, F., Evans, C., & Mellor-Clark, J. (2006). Dose-effect relations and responsive regulation of treatment duration: The good enough level. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 74(1), 160-167.
Barlow, D. H., Craske, M. G., & Farchione, T. J. (Eds.). Clinical Handbook of Psychological Disorders: A Step-by-Step Treatment Manual. Guilford Press.
Gabbard, G. O. (2004). Long-Term Psychodynamic Psychotherapy: A Basic Text. American Psychiatric Publishing.
Bateman, A., & Fonagy, P. (1999). Effectiveness of partial hospitalization in the treatment of borderline personality disorder: A randomized controlled trial. American Journal of Psychiatry, 156(10), 1563-1569.
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