Fobia a Botões: Causas, Sintomas e Tratamento

fobia de botões

A fobia a botões, também designada koumpounofobia, é uma fobia específica pouco conhecida e frequentemente desvalorizada. À primeira vista pode parecer uma excentricidade, mas para quem a vive o impacto é real: dificuldade em vestir-se, evitamento de roupa com botões, desconforto em contacto próximo com outras pessoas e um esforço constante para não tocar em nada que os tenha.

Este artigo explica o que caracteriza este medo, o papel de uma emoção muitas vezes esquecida, o nojo, e o que a literatura científica diz sobre o seu tratamento.

O que é a fobia a botões

Clinicamente, enquadra-se como fobia específica: um medo ou aversão intensa e persistente a um objeto concreto, desproporcionada face ao perigo real, que leva a evitamento e a sofrimento ou prejuízo funcional. A pessoa reconhece, muitas vezes, que um botão não representa qualquer ameaça, e isso não diminui a reação.

O evitamento pode ser extenso: não vestir camisas, casacos ou uniformes com botões, evitar tocar em roupa de outras pessoas, ou dedicar muita atenção a que nada com botões lhe toque no corpo. Nas crianças, isto pode traduzir-se em dificuldade em vestir-se sozinhas e em concentrar-se na escola.

O nojo, a emoção esquecida

Uma particularidade importante é que, nesta fobia, a emoção dominante nem sempre é o medo. Muitas pessoas descrevem os botões como “nojentos” e não como perigosos, referindo reação de repulsa ao contacto com o corpo, à textura, ou até a um suposto cheiro desagradável. Frequentemente, têm dificuldade em explicar exatamente o que os torna repugnantes.

A investigação sobre fobias tem chamado a atenção para o nojo como emoção que, em interação com o medo, pode aumentar o evitamento e manter a fobia. Não se trata de o objeto ser perigoso, mas de ser avaliado negativamente, sem que a pessoa antecipe qualquer dano concreto.

Causas

Não existe uma causa única. Em alguns casos, a fobia surge após uma experiência desagradável com botões. No estudo de caso que serve de base a este artigo, um rapaz de 9 anos desenvolveu a fobia aos 5, quando uma tigela cheia de botões lhe caiu em cima durante uma atividade escolar. Noutros casos, não há memória de qualquer acontecimento marcante.

Um mecanismo relevante é a chamada aprendizagem avaliativa, uma forma de condicionamento em que o objeto passa a ser percecionado como aversivo sem que a pessoa espere qualquer consequência negativa. É diferente do condicionamento clássico em que o medo resulta da expectativa de perigo. Esta distinção tem consequências práticas para o tratamento.

Epidemiologia

Não existem dados fiáveis sobre a prevalência da fobia a botões, em Portugal ou noutros países. Não é uma entidade diagnóstica autónoma e a literatura científica é muito escassa. O que se sabe provém sobretudo de relatos de caso.

Tratamento com evidência científica

A abordagem de referência nas fobias específicas é a Terapia Cognitivo-Comportamental, com exposição gradual ao estímulo temido. No caso de fobia a botões, a evidência disponível é limitada a um estudo de caso, pelo que deve ser interpretada com cautela.

Nesse caso, a criança começou por ser tratada com exposição em contexto real, com uma hierarquia de estímulos, dos botões de ganga grandes aos pequenos botões de plástico transparente, e com reforço positivo por parte da mãe. Ao fim de quatro sessões, completou todas as tarefas de exposição. No entanto, o desconforto que reportava não diminuiu: aumentou. Ou seja, o comportamento de aproximação melhorava, mas a avaliação emocional dos botões piorava.

Só quando o tratamento passou a incluir exposição em imaginação a conteúdos de nojo (imaginar os botões a cair sobre o corpo, o seu aspeto, textura e cheiro), juntamente com reestruturação cognitiva, o desconforto diminuiu de forma consistente. Após sete sessões deste tipo, a criança já não cumpria critérios de fobia específica e passou a usar diariamente uma camisa de uniforme com botões de plástico transparente, precisamente os que antes eram mais aversivos. Os ganhos mantiveram-se aos 6 e 12 meses.

A mensagem clínica é relevante: quando a exposição bem-sucedida ao objeto não reduz o desconforto, ou até o agrava, convém avaliar se o nojo está a manter o problema e, se estiver, incluí-lo diretamente no tratamento. Importa, contudo, sublinhar as limitações: é um único caso, numa criança, publicado em 2002, com critérios diagnósticos entretanto atualizados. Serve para orientar a prática clínica e a investigação, mas não permite tirar conclusões gerais.

O papel da Realidade Virtual

Não existem, até à data, estudos publicados sobre Realidade Virtual aplicada especificamente à fobia a botões. Isso não significa, no entanto, que se parta do zero. A exposição em Realidade Virtual é uma das abordagens mais estudadas no tratamento das fobias específicas: as meta-análises de ensaios clínicos aleatorizados mostram efeitos grandes face a listas de espera e resultados equivalentes aos da exposição in vivo, e a maior parte dos ensaios incluídos incide precisamente em fobias específicas.

Há boas razões para pensar que a Realidade Virtual tem aqui um papel útil. A fobia a botões é difícil de trabalhar só com exposição no dia a dia: os estímulos são pequenos, variados (tamanho, material, cor, transparência) e muitas vezes ligados ao corpo e à roupa de outras pessoas, o que torna complicado graduá-los e controlá-los. Em Realidade Virtual é possível construir uma hierarquia à medida, repetir cada nível as vezes necessárias e manter o paciente em segurança e em privacidade. Além disso, o caso descrito neste artigo mostrou que, quando o nojo está presente, é preciso expô-lo diretamente, e a exposição em imaginação pode ser difícil de evocar, sobretudo em crianças. Os cenários imersivos, como botões a cair sobre o corpo ou o contacto próximo com roupa abotoada, permitem trabalhar situações semelhantes com mais realismo e com o terapeuta a acompanhar a reação em tempo real.

Convém ser claro quanto aos limites. Esta é uma extrapolação razoável a partir da evidência noutras fobias, e não um resultado demonstrado para este problema. A Realidade Virtual também não reproduz tato nem cheiro, dimensões relevantes numa fobia em que o nojo ao contacto ocupa lugar central. Por isso, na prática, funciona melhor como porta de entrada, seguida de exposição em contexto real e, quando necessário, de trabalho específico sobre o nojo, do que como substituto do resto do tratamento.

Quando procurar ajuda

Se o medo ou a repulsa por botões leva a evitar roupa, contacto com outras pessoas ou situações do quotidiano, ou se, no caso de uma criança, interfere com a rotina escolar e familiar, há indicação para procurar avaliação especializada. É útil que essa avaliação distinga a fobia específica de outros quadros, como a perturbação obsessivo-compulsiva, e avalie o papel do nojo na manutenção do problema.

Referências bibliográficas

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