Terapia de Realidade Virtual: Da Neurobiologia à Prática Clínica

 De há alguns meses para cá, tenho integrado a terapia de realidade virtual na minha prática clínica quotidiana. O foco tem sido as perturbações de ansiedade, em particular situações fóbicas. Hoje centro-me na Aerofobia, condição que afeta entre 2,5% a 6,5% da população, com impacto significativo na vida pessoal e profissional. Os métodos tradicionais de tratamento – exposição in vivo e técnicas imaginativas – apresentam limitações práticas e individuais que comprometem a sua eficácia. A Realidade Virtual (VR) surge como uma alternativa tecnológica que responde a estas barreiras.

Permita-me que muito sucintamente faça referência à neurobiologia do medo e ansiedade. O neurocientista americano Joseph LeDoux ajudou-nos a compreender como o medo funciona no cérebro. Existem duas formas de processar uma ameaça: uma via rápida e automática (que nos faz reagir instantaneamente a um perigo) e uma via mais lenta que nos permite pensar e avaliar a situação com mais calma. As nossas reações de defesa – ficar paralisado, fugir ou lutar – são mecanismos antigos de sobrevivência. Quando estas reações se associam a memórias intensas, tornam-se difíceis de extinguir.

Mas há algo importante que LeDoux destaca: a ativação automática destes circuitos de defesa não é a mesma coisa que sentir medo ou ansiedade. Estes sentimentos surgem quando integramos conscientemente o que está a acontecer no nosso corpo, as nossas memórias e o significado que damos à situação. A ansiedade é ainda mais complexa – envolve preocupação com o futuro, interpretações, pensamentos repetitivos. Na prática clínica com VR, trabalhamos estes dois níveis: as reações automáticas do corpo e a forma como a pessoa interpreta e dá sentido à sua experiência.

Limites Tradicionais vs. Terapia de Realidade Virtual

Um Défice de Imaginação

À medida que me ia tornando um clínico mais experimentado, notava que algumas pessoas tinham evidentes dificuldades em imaginar. E que procedimentos com baseados em imaginação guiada ou hipnose, dependiam, como é natural, fortemente dessa capacidade. Sem ela, os esforços para evocar satisfatoriamente a situação eram infrutíferos. Mesmo em alguns daqueles pacientes que imaginam com facilidade, a experiência emocional e o grau de detalhe que a VR possibilita é superior.

A importância da experiência multisensorial

Uma das minhas surpresas tem sido a importância dos aspetos sensoriais para além da visão. O realismo gráfico é importante, atinge já níveis muito interessantes e irá melhorar bastante no futuro com equipamentos ainda mais refinados. Mas as sensações não visuais têm muita importância: o som típico dos aeroportos e o som dos motores do avião, por exemplo. Ou as sensações hápticas, de turbulência, que existem nalguns softwares. A experiência sensorial global é chave para aquilo a que chamamos de experiência emocional evocativa. E considero que tanto o estilo mais “gamificado” como o estilo realista baseado em filmagens tem vantagens e desvantagens, embora me pareça que o futuro será o estilo “gamificado” de alta qualidade, pela maior capacidade de personalização. Conversei informalmente com um especialista, doutorado em informática, que me apontou essa tendência.

Jornada do Paciente e Exposição Segmentada

No medo de voar, a tecnologia permite simular o percurso completo da experiência, isto é, desde o trajeto para o aeroporto até a recolha de malas. Consigo isolar e repetir exaustivamente circunstâncias específicas de maior ansiedade, como a descolagem, o olhar pela janela ou a turbulência, possibilitando que o paciente repita o estímulo até que a habituação ocorra.

Dr. Marco de Melo Martins - Terapia de Realidade Virtual Porto
Na clínica EME Saúde, a testar a hierarquia de exposição – Aerofobia

Mecanismo de extinção do medo/ansiedade

A Terapia de Realidade Virtual não é apenas exposição no sentido estrito. É, como disse há pouco, uma experiência emocional evocativa. Estou ciente que nem toda a gente beneficia deste tipo de técnica e isso é absolutamente normal. Trata-se de uma opção terapêutica e não de uma obrigação ou técnica ubíqua. No entanto, ao contrário do que possa intuitivamente parecer, a sua utilização não só não enfraquece como pode até reforçar a relação terapêutica. Porque estou junto ao paciente enquanto ele literalmente enfrenta os seus medos. Possibilita presença, suporte e regulação emocional em tempo real.

O que acontece do ponto de vista neurobiológico e psicológico é fascinante: a extinção não apaga a memória original do medo. Em vez disso, cria-se uma nova memória de segurança que compete com a antiga. Cada exposição repetida fortalece esta nova memória, até que ela se torna dominante e inibe as reações automáticas de medo e ansiedade. É este fenómeno – a competição entre memórias – que possibilita a extinção. E há que ter em conta que a psicofarmacologia pode ter aqui um papel sinergético fundamental, sobretudo nos casos mais severos.

A evidência científica do uso da tecnologia VR em saúde mental está bem estabelecida e é comparável à exposição in vivo.  Vamos sendo mais capazes – com a ajuda da engenharia, que é o parceiro fulcral nestes desenvolvimentos – de, com facilidade, construir hierarquias de exposição, repetir de maneira ilimitada e conseguir uma ativação emocional genuína e crítica para o enfraquecimento do medo e/ou ansiedade, fenómeno a que chamamos extinção.

Conclusão

A Terapia de Realidade Virtual representa uma convergência entre neurociência, tecnologia e prática clínica. Permite-nos trabalhar diretamente com os mecanismos cerebrais de extinção do medo, ultrapassando as limitações das abordagens tradicionais. Com o desenvolvimento tecnológico em curso – nomeadamente através da parceria com a engenharia – teremos ferramentas cada vez mais sofisticadas e personalizáveis para ajudar os nossos pacientes a reconquistar a liberdade que o medo e ansiedade lhes roubou.

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