PTSD (Perturbação de Stress Pós-Traumático): Causas, Sintomas e Tratamento

PTSD é a sigla inglesa de Post-Traumatic Stress Disorder. O nome clínico oficial, em português de Portugal, é Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT), e é este o termo usado ao longo deste artigo, ainda que a sigla PTSD apareça também, por ser a forma como a maioria das pessoas procura informação sobre o tema.

A PTSD está para lá de simplesmente “ficar abalado” depois de um acontecimento difícil. É uma perturbação psiquiátrica reconhecida, com critérios de diagnóstico bem definidos, que pode instalar-se depois de uma pessoa vivenciar, testemunhar ou tomar conhecimento direto de um acontecimento traumático. Este artigo explica o que caracteriza a PTSD, o que a distingue de uma reação normal ao stress, e o que a evidência científica diz sobre o tratamento mais eficaz.

O que é a PTSD

A PTSD desenvolve-se depois da exposição a um acontecimento traumático, entendido como uma situação de ameaça real à integridade física ou à vida, seja a própria ou de outra pessoa. Acidentes graves, agressões, violência sexual, catástrofes naturais, combate militar, ou ser mantido em cativeiro são exemplos comuns de acontecimentos com potencial traumático.

Os sintomas organizam-se em quatro grandes grupos, e a presença simultânea de sintomas em cada um destes grupos, com duração de pelo menos um mês, é o que sustenta o diagnóstico:

Revivência involuntária. Memórias intrusivas e perturbadoras do acontecimento, pesadelos recorrentes, ou flashbacks, nos quais a pessoa sente que está de novo a viver o momento traumático, não apenas a recordá-lo.

Evitamento. Esforço ativo para evitar pensamentos, sentimentos, pessoas, lugares ou situações que recordem o acontecimento.

Alterações negativas na cognição e no humor. Crenças negativas persistentes sobre si próprio, sobre os outros, ou sobre o mundo, dificuldade em recordar aspetos importantes do acontecimento, sentimento de distanciamento em relação a outras pessoas, ou incapacidade de sentir emoções positivas.

Hiperativação. Irritabilidade, dificuldade de concentração, hipervigilância, resposta de sobressalto exagerada, e perturbações do sono.

Na maioria dos casos, os sintomas surgem nos primeiros seis meses após o acontecimento traumático, mas em cerca de 10% dos casos o início é retardado, por vezes anos depois do acontecimento, o que pode dificultar o reconhecimento da ligação entre o trauma e os sintomas atuais.

Epidemiologia

O risco de desenvolver PTSD depois de um acontecimento traumático varia consideravelmente consoante o género e o tipo de trauma: entre 8% e 13% nos homens, e entre 20% e 30% nas mulheres. A prevalência ao longo da vida ronda os 7% a 8% da população geral, sendo cerca de duas vezes mais frequente em mulheres do que em homens. Certos tipos de trauma, como violação, tortura, ou cativeiro em contexto de guerra, associam-se a taxas de PTSD particularmente elevadas.

Em Portugal, a PTSD tem uma relação histórica particular com a Guerra Colonial. Estima-se que, dos cerca de 800 mil combatentes portugueses que participaram nesse conflito, aproximadamente 40 mil desenvolveram sintomas compatíveis com PTSD, muitos dos quais permaneceram anos sem diagnóstico nem tratamento adequado, numa altura em que a compreensão clínica da perturbação era ainda incipiente. Esta herança histórica ajuda a explicar por que razão a investigação portuguesa sobre PTSD se concentrou, durante décadas, sobretudo em veteranos de guerra, havendo hoje um reconhecimento mais alargado de que a perturbação surge também na sequência de outros tipos de trauma, como violência doméstica, acidentes graves, ou agressão sexual.

Fatores de risco

Nem toda a gente que vive um acontecimento traumático desenvolve PTSD. A investigação identifica alguns fatores que aumentam a vulnerabilidade:

  • Gravidade e proximidade da ameaça vivida durante o acontecimento traumático.
  • Historial pessoal ou familiar de perturbações psiquiátricas, sobretudo do humor ou de ansiedade.
  • Acontecimentos traumáticos anteriores, incluindo experiências adversas na infância.
  • Baixa autoestima ou traços de personalidade mais vulneráveis à ansiedade.
  • Fraco suporte social após o acontecimento, ou reações negativas de terceiros perante a experiência da pessoa.

A qualidade do suporte social recebido depois do trauma é, de resto, um dos fatores mais consistentemente associados a uma melhor recuperação, o que reforça a importância de combater o isolamento de quem atravessa este processo.

Comorbilidade

A PTSD raramente surge isolada. É frequente a coexistência com perturbações depressivas, outras perturbações de ansiedade, e problemas relacionados com o consumo de álcool ou substâncias, muitas vezes como forma de a pessoa tentar lidar com a hiperativação ou as memórias intrusivas. Esta sobreposição é clinicamente relevante: negligenciar a componente depressiva ou o consumo de substâncias, tratando apenas os sintomas mais visíveis de PTSD, tende a comprometer o resultado global do tratamento.

Tratamento com evidência científica

As duas abordagens psicológicas com maior sustentação científica para o tratamento da PTSD são a Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma e o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing). Ambas são recomendadas como tratamento de primeira linha nas principais diretrizes clínicas internacionais, e múltiplas meta-análises mostram que as duas abordagens tendem a ser igualmente eficazes, sem diferenças clinicamente significativas entre elas.

A Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma é o termo “guarda-chuva” que engloba diferentes protocolos manualizados, todos assentes nos mesmos princípios de base (psicoeducação, exposição ao acontecimento traumático e às situações evitadas, e trabalho sobre crenças distorcidas), mas com ênfases distintas consoante o protocolo. Dois dos mais estudados são a Terapia de Exposição Prolongada, que dá primazia à exposição repetida e estruturada à memória traumática e às situações evitadas, tanto imaginária como in vivo, como forma central de reduzir a carga emocional associada ao trauma, e a Terapia de Processamento Cognitivo, que dá primazia ao trabalho sobre as crenças distorcidas geradas pelo acontecimento traumático, como a autoculpabilização ou a perceção de que o mundo é constantemente perigoso. Na prática, ambas continuam a ser variantes de um mesmo modelo cognitivo-comportamental, e não abordagens alternativas a ele.

O EMDR é uma abordagem distinta, que combina o processamento da memória traumática com movimentos oculares bilaterais ou outras formas de estimulação bilateral. É também uma das abordagens mais debatidas na literatura científica há já várias décadas, e vale a pena explicar porquê, com rigor. Quando a Divisão 12 de Psicologia Clínica da American Psychological Association avaliou o EMDR nos anos noventa, classificou-o como um tratamento “provavelmente eficaz” para PTSD civil, uma categoria que gerou controvérsia própria, precisamente por assentar em poucos estudos comparados com placebo, e não em comparações diretas com outras terapias já validadas. Desde então, múltiplos estudos de desmontagem (que comparam o EMDR completo com versões do mesmo protocolo sem os movimentos oculares) têm sido consistentes num ponto: os movimentos oculares, o elemento que dá nome à própria técnica, não parecem acrescentar benefício mensurável além do que já é obtido só com a exposição à memória traumática. Isto levou vários investigadores a defender que o EMDR pode não ser conceptualmente distinto de outras técnicas de exposição já estabelecidas, uma posição que continua em debate.

Dito isto, e sem minimizar esta controvérsia teórica, a eficácia clínica do EMDR, enquanto conjunto de procedimentos, está bem documentada em ensaios controlados quando comparado com ausência de tratamento, e é hoje reconhecido como uma opção validada, com resultados comparáveis aos das terapias cognitivo-comportamentais focadas no trauma. A forma mais honesta de resumir o estado atual da evidência é esta: o EMDR funciona, mas o debate sobre o que exatamente, dentro do protocolo, é responsável por esse efeito, mantém-se por resolver.

O papel da psicoterapia psicodinâmica

Vale a pena destacar aqui algo que a abordagem exclusivamente cognitivo-comportamental, por si só, nem sempre contempla. Existe hoje um corpo de investigação específico, não sobre psicodinâmica em sentido lato, mas sobre um modelo manualizado chamado Terapia Psicodinâmica Focada no Trauma (TF-PDT), desenvolvido e testado sobretudo pela equipa de Falk Leichsenring, na Alemanha. Esta distinção é importante: a evidência mais sólida não sustenta a psicodinâmica tradicional aplicada sem adaptação ao trauma, mas sim este modelo específico, focado, à semelhança da TCC focada no trauma, no próprio acontecimento traumático e no seu significado para a pessoa.

Os resultados são particularmente favoráveis em quadros de trauma complexo, como PTSD associada a maus-tratos na infância ou com comorbilidade de perturbação borderline da personalidade, onde estudos em contexto de internamento mostram melhorias significativas com este tipo de abordagem. Um ensaio clínico multicêntrico de grande dimensão, atualmente em curso, está a comparar diretamente a TF-PDT com outras abordagens estruturadas de primeira linha, o que deverá reforçar ainda mais esta base de evidência nos próximos anos.

Na prática, isto significa que o trabalho psicodinâmico focado no trauma pode ser um complemento valioso, sobretudo quando o acontecimento traumático abala de forma mais profunda o sentido de identidade e de segurança básica da pessoa no mundo, ou reativa vulnerabilidades e conflitos anteriores ao próprio acontecimento. Não substitui o trabalho estruturado focado no trauma, mas amplia o que este pode oferecer, em particular nos casos mais complexos ou crónicos.

Farmacologia

A medicação pode ter um papel relevante quando a pessoa está demasiado perturbada para se envolver inicialmente em psicoterapia, quando existe uma ameaça grave em curso, ou quando não há resposta suficiente à abordagem psicológica isolada. Os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina são a classe de fármacos com aprovação específica para PTSD, e o seu uso é sustentado por revisões sistemáticas. A decisão de recorrer a medicação, e qual, decorre de uma avaliação clínica individual, conduzida por psiquiatra.

O papel da Realidade Virtual

A Realidade Virtual tem vindo a ganhar um papel reconhecido no tratamento da PTSD, sobretudo através de programas de exposição desenvolvidos especificamente para recriar cenários de combate, usados extensamente com veteranos de guerra nos Estados Unidos e, mais recentemente, também na Europa. Os resultados destes programas são favoráveis, com reduções significativas da sintomatologia mesmo em pessoas que não tinham respondido a formas mais tradicionais de exposição.

É importante ser transparente sobre isto: este tipo de programa é altamente especializado, construído para recriar cenários muito específicos (ambientes militares, zonas de combate, contextos de assalto ou catástrofe), e o investimento associado a este software é avultado. Na minha prática, não utilizo atualmente este tipo de ferramenta especializada, por duas razões concretas: o custo é elevado, e os casos que efetivamente beneficiariam de uma recriação tão específica (por exemplo, trauma de combate) são pouco frequentes na generalidade da prática clínica privada. Nestes casos mais específicos, a articulação com serviços especializados, incluindo os que já dispõem deste tipo de tecnologia, é a opção clinicamente mais adequada.

Isto não significa que a Realidade Virtual não tenha lugar no acompanhamento de pessoas com PTSD nesta prática. Estímulos controlados, como multidões, ruídos altos, luzes intermitentes ou sirenes, podem ser úteis como parte de um trabalho mais amplo de gestão da hiperativação e de dessensibilização a gatilhos sensoriais específicos, sempre integrado num processo terapêutico mais alargado, e nunca como substituto do trabalho de processamento do próprio acontecimento traumático.

Prognóstico

Sem tratamento, cerca de metade das pessoas com PTSD recupera no primeiro ano após o início dos sintomas, enquanto cerca de 30% desenvolve um curso mais crónico. A evolução é favorecida por bom suporte social, ausência de mecanismos de coping desadaptativos (como evitamento extremo, negação, comportamentos de segurança excessivos, ou supressão persistente do pensamento sobre o acontecimento), e pela ausência de novos acontecimentos adversos na vida da pessoa. Com tratamento adequado e atempado, o prognóstico melhora significativamente.

Quando procurar ajuda

Se, um mês ou mais depois de um acontecimento traumático, persistem memórias intrusivas, pesadelos, evitamento acentuado de lembranças do acontecimento, alterações no humor ou na forma como a pessoa se vê a si própria, ou um estado de hiperativação constante, há indicação clara para procurar avaliação especializada. A PTSD tem tratamento eficaz e validado cientificamente. Adiar a procura de ajuda, por vergonha ou por desvalorização do próprio sofrimento, só prolonga um processo que, com o acompanhamento certo, tem um caminho claro de recuperação.


Referências bibliográficas

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Saúde mental, Perturbação de stress pós-traumático, Centro Hospitalar de Leiria.

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