
Medo de voar, medo de conduzir, medo de falar em público. São fobias específicas, bem delimitadas, com um objeto ou situação claramente identificável que desencadeia a ansiedade. É também por isso que a Terapia de Exposição por Realidade Virtual (VRET) tem mostrado resultados particularmente consistentes neste tipo de problema, porque permite recriar, com controlo e segurança, exatamente a situação temida.
Mas a experiência clínica mostra algo que a literatura científica confirma de forma sistemática: estas fobias raramente existem isoladas. O medo de voar pode ser a manifestação mais visível de uma ansiedade mais global. O medo de conduzir pode estar ligado a uma perturbação de pânico. O medo de falar em público pode ser apenas a face mais incómoda de uma ansiedade social que se estende a outras situações de exposição e escrutínio.
A comorbilidade é a regra, não a excepção
Os dados epidemiológicos são claros quanto a isto. Os estudos populacionais mostram que as fobias específicas têm uma prevalência ao longo da vida que pode chegar aos 13,8% da população adulta, e que a sua comorbilidade com outras perturbações de ansiedade e do humor é elevada, sobretudo depois do início da fobia. Uma fobia não tratada não fica simplesmente “guardada”. Está associada a um risco aumentado de desenvolver outras perturbações de ansiedade, depressivas, ou de abuso de substâncias ao longo do tempo.
Isto significa que, na prática clínica, encontramos menos um caso “puro” de medo de voar sem mais nada à volta. Encontramos pessoas que evitam viajar, mas que também sentem uma ansiedade mais difusa em situações de imprevisibilidade ou perda de controlo. Encontramos pessoas que recusam conduzir, mas cujo padrão de evitamento se estende a outras situações onde a fuga não é fácil: multidões, espaços fechados, longas distâncias de casa. Encontramos pessoas que temem falar diante dos outros, mas que descrevem um desconforto mais amplo em qualquer situação de avaliação social.
O que isto significa para o tratamento
Esta constatação não diminui o valor da Realidade Virtual — pelo contrário, ajuda a posicioná-la corretamente. A VRET é uma ferramenta de exposição particularmente eficaz para o sintoma mais visível e mais incapacitante: a situação fóbica específica. A investigação mais robusta nesta área, incluindo revisões sistemáticas e meta-análises de ensaios controlados e aleatorizados, confirma que a exposição com realidade virtual produz efeitos comparáveis à exposição in vivo — o método de referência historicamente considerado o “gold standard” no tratamento das fobias.
Mas tratar apenas o sintoma mais visível, sem considerar o quadro em que ele se insere, pode deixar por resolver uma parte importante do sofrimento da pessoa. É aqui que a avaliação clínica completa, feita por um psicólogo clínico com formação e experiência no diagnóstico diferencial das perturbações de ansiedade, faz toda a diferença. A Realidade Virtual não substitui esse trabalho, integra-se nele, como uma ferramenta poderosa dentro de um plano terapêutico mais abrangente.
Na prática, isto pode significar que o tratamento começa pela exposição à situação fóbica específica (porque é frequentemente o problema mais incapacitante e mais fácil de delimitar) mas evolui, caso a avaliação clínica o justifique, para abordar padrões de ansiedade mais gerais, usando abordagens cognitivo-comportamentais ou psicodinâmicas ou interpessoais complementares. E é necessário clarificar também que a Realidade Virtual serve um outro propósito importante no tratamento das perturbações de ansiedade além da exposição: o relaxamento. Que pode assim ser feito ou complementado por esta via inovadora.
Reconhecer-se numa fobia específica
Se evita voar, conduzir, ou falar em público, é natural que se identifique primeiro com esse medo concreto. É o que mais interfere com o dia a dia, o que gera mais frustração, o que é mais fácil de descrever a outra pessoa. Mas se, ao refletir sobre isso, perceber que a ansiedade não se limita a essa situação específica, que está presente noutros contextos, de forma mais ténue ou mais constante, vale a pena trazer essa observação para a primeira consulta.
O objetivo de uma avaliação clínica completa não é apenas eliminar um medo pontual, mas compreender o padrão de ansiedade no seu conjunto, e construir, a partir desse entendimento, o plano de tratamento mais adequado para pessoa que nos procura ajuda, que pode ou não incluir a Realidade Virtual, dependendo do que a avaliação revelar.
Referências bibliográficas
- Wechsler, T. F., Kümpers, F., & Mühlberger, A. (2019). Inferiority or even superiority of virtual reality exposure therapy in phobias?—A systematic review and quantitative meta-analysis on randomized controlled trials specifically comparing the efficacy of virtual reality exposure to gold standard in vivo exposure in agoraphobia, specific phobia, and social phobia. Frontiers in Psychology, 10, 1758. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2019.01758/full
- Eaton, W. W., Bienvenu, O. J., & Miloyan, B. (2018). Specific phobias. The Lancet Psychiatry, 5(8), 678-686. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(18)30169-X/abstract
- Wechsler, T. F., et al. (2021). Tips for effective implementation of virtual reality exposure therapy in phobias—A systematic review. Frontiers in Psychiatry, 12, 737351. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/psychiatry/articles/10.3389/fpsyt.2021.737351/full