
Antes de qualquer técnica, antes de qualquer modelo teórico, antes de qualquer intervenção estruturada, existe uma relação humana. É nela que o paciente encontra segurança, confiança e espaço para mudar. A relação não é um detalhe do processo terapêutico. É, com frequência, o próprio mecanismo que o sustenta.
Isto não significa que a relação, por si só, cure. A técnica, o método e a estrutura continuam a ser necessários e, como veremos mais adiante, este é ainda um debate em aberto na investigação. Mas há algo notável na história das ideias em psicoterapia: escolas que nunca dialogaram entre si, e que por vezes se definiram em oposição umas às outras, chegaram de forma independente à mesma conclusão sobre a centralidade da relação.
A aliança terapêutica: uma ideia nascida na psicanálise
A maior parte das pessoas associa a “aliança terapêutica” à psicologia humanista ou à investigação empírica contemporânea. Na realidade, o conceito nasceu dentro da própria psicanálise, e a sua genealogia é reveladora.
Tudo começa com Freud e a sua teorização sobre a transferência. Inicialmente vista como um obstáculo (uma distorção que o paciente projetava sobre o analista), Freud foi ao longo da sua obra reconhecendo que também podia desenvolver-se um vínculo genuíno e benéfico entre psicólogo clínico/psiquiatra e paciente, distinto da mera projeção. Foi Elizabeth Zetzel, em 1956, quem deu nome a essa componente: chamou-lhe aliança, definindo-a como o elemento relacional não-neurótico e não-transferencial que permite ao paciente confiar no clínico e fazer uso das suas interpretações.
Ralph Greenson, em 1967, aprofundou esta ideia e traçou uma distinção que se revelaria decisiva: separou a aliança de trabalho da relação real entre terapeuta e paciente, a parte genuína e não distorcida do encontro, livre das propriedades transferenciais. Décadas mais tarde, esta distinção seria retomada e sistematizada por Charles Gelso, como veremos.
Foi Edward Bordin, em 1979, quem deu o passo final: retirou o conceito das suas raízes exclusivamente psicanalíticas e propôs um modelo aplicável a qualquer abordagem terapêutica, decompondo a aliança em três elementos — vínculo emocional, objetivos partilhados e tarefas acordadas. Argumentou que a força da aliança, mais do que o tipo de terapia praticada, seria o principal fator de mudança. Esta formulação “pan-teórica” é a que ainda hoje orienta a investigação sobre o tema.
As primeiras sessões são particularmente decisivas neste processo. É nelas que o paciente faz uma avaliação sobre se pode confiar no psicólogo e se aquele espaço é seguro. Não é por acaso que grande parte das desistências acontece logo após a primeira consulta. E a aliança não é um dado adquirido, estável do início ao fim: constrói-se, mantém-se e, por vezes, quebra-se. A capacidade de reconhecer e reparar estas ruturas é hoje considerada um dos fatores relacionais mais promissores associados a bons resultados clínicos — ainda que, como veremos, a evidência sobre este ponto específico esteja em fase de consolidação.
Outras vozes da psicanálise: Jung, Adler, Bion, Winnicott e Kohut
O interessante é que Freud não foi o único pioneiro da psicanálise a atribuir um lugar central à relação. Vários dos seus contemporâneos e sucessores, por caminhos teóricos diferentes, chegaram a conclusões semelhantes.
Jung rompeu com a ideia de uma relação assimétrica entre um analista neutro e um paciente observado. Descreveu a análise como um “processo dialético”, implicando que ambos os participantes estão igualmente envolvidos numa interação de dois sentidos. Escreveu, já na maturidade da sua obra, que o analista deixara de ser “o sábio superior, juiz e conselheiro” para se tornar “um companheiro de participação, tão envolvido no processo dialético quanto o chamado paciente”. Para Jung, o próprio inconsciente do analista entra em jogo. A relação transforma os dois, não apenas o paciente.
Adler, de forma ainda mais radical para a sua época, insistiu numa relação fundamentalmente igualitária. Foi um dos primeiros clínicos a abandonar o divã em favor de duas cadeiras, permitindo que psicólogo/psiquiatra e paciente se sentassem em pé de igualdade. Para Adler, a terapia funciona através de encorajamento genuíno, respeito mútuo e colaboração — e o próprio sentido de conexão social do paciente (aquilo a que chamou Gemeinschaftsgefühl, o sentimento de comunidade) só se desenvolve dentro de uma relação terapêutica que já o modele.
Bion contribuiu com um conceito mais silencioso, quase pré-verbal: a contenção. Não se trata de colaboração consciente, mas da capacidade do terapeuta de receber aquilo que o paciente ainda não consegue pensar ou sentir sozinho, processá-lo internamente, e devolvê-lo de forma que se torne suportável.
Winnicott deu-nos o conceito de holding. O terapeuta oferece um ambiente seguro, confiável e empático, “segurando” as emoções e angústias do paciente, permitindo-lhe explorar a sua experiência sem risco. Antes de qualquer interpretação, é o próprio ambiente relacional que já é terapêutico.
Kohut, por fim, colocou a empatia no centro da técnica psicanalítica. Não como uma atitude simpática acessória, mas como o instrumento primário de observação clínica. Para Kohut, respostas empáticas do ambiente relacional, equilibradas com frustrações, são o que permite a consolidação de um self coeso.
O que estas cinco vozes têm em comum, apesar das diferenças teóricas profundas entre si, é a convicção de que a pessoa do clínico, e não apenas a sua técnica, é um agente ativo da mudança.
Rogers e as condições nucleares
Em paralelo com estes desenvolvimentos psicanalíticos, Carl Rogers propunha, a partir da psicologia humanista, uma tese semelhante por uma via completamente distinta. No seu artigo de 1957, Rogers identificou seis condições que considerava necessárias para a mudança terapêutica, três das quais dependem do terapeuta: congruência (autenticidade), consideração positiva incondicional (aceitação sem julgamento) e compreensão empática. A afirmação de Rogers era, na altura, extraordinariamente forte. Considerava estas condições não apenas importantes, mas necessárias e suficientes.
A investigação das décadas seguintes confirmou a importância destes elementos, mas recuou da tese mais forte da suficiência. Como resume um comentário académico recente sobre o legado de Rogers: se ele tivesse dito que a congruência, a empatia e a consideração positiva incondicional são elementos muito importantes da terapia para muitas pessoas, durante muito tempo, teria continuado certo. Os ingredientes que Rogers identificou revelaram-se sólidos e continuam a orientar a prática clínica; foi sobretudo a afirmação da sua suficiência absoluta que a investigação posterior veio matizar.
A relação real: a profundidade psicológica de Gelso
Foi Charles Gelso quem retomou a distinção de Greenson entre aliança e relação real, e lhe deu forma sistemática e mensurável. Gelso define a relação real como a relação pessoal entre duas pessoas, refletida no grau em que cada uma é genuína com a outra e a perceciona tal como ela verdadeiramente é. Decompõe-se em dois elementos:
- Genuinidade — a capacidade de ser quem verdadeiramente se é, sem artificialidade, autêntico no aqui e agora.
- Realismo — perceber o outro tal como ele é, e não como projeção de alguém desejado ou temido. É, precisamente, o oposto da transferência.
Há aqui uma profundidade clínica que vale a pena reter: a relação real não é apenas “criar rapport”. É a capacidade de terapeuta e paciente se verem um ao outro sem as distorções que normalmente povoam as relações humanas — sem o clínico projetar as suas próprias necessidades no paciente, sem o paciente reduzir o terapeuta a uma figura do seu passado. É um dos poucos espaços relacionais na vida adulta onde isto é sistematicamente trabalhado.
A relação real não é o mesmo que a aliança de trabalho, ainda que estejam relacionadas — uma meta-análise recente confirmou uma correlação de r=.66 entre os dois construtos, concluindo que a relação real prediz os resultados terapêuticos tão bem quanto a aliança, beneficiando ambas mutuamente uma da outra. A aliança é o acordo funcional de trabalho; a relação real é o encontro humano por trás desse acordo. É possível ter uma boa aliança (cumprir tarefas, colaborar bem) sem que exista, por baixo dela, um verdadeiro encontro entre duas pessoas.
O que torna um psicólogo eficaz
A investigação de Bruce Wampold mostra algo que confronta uma ideia comum: nem todos os psicólogos obtêm resultados semelhantes, mesmo quando usam o mesmo modelo teórico com o mesmo tipo de pacientes. Uma meta-análise sobre o chamado “efeito do terapeuta” encontrou um efeito relativamente grande (d=0,55) — o psicólogo, independentemente da técnica que aplica, faz diferença mensurável.
O que distingue os terapeutas mais eficazes dos restantes é um conjunto de competências interpessoais concretas:
Fluência verbal — naturalidade e à-vontade na comunicação com o paciente.
Esperança e expectativas positivas — transmitir otimismo realista sobre a possibilidade de mudança.
Persuasão — propor ao paciente uma visão diferente da sua, sem impor.
Expressão emocional — energia e emoção transmitidas de forma eficaz.
Calor humano, aceitação e compreensão — cuidar do paciente e aceitá-lo tal como é.
Empatia — compreensão expressa, e não apenas sentida, da experiência subjetiva do paciente.
Capacidade de vínculo de aliança — criar um ambiente colaborativo, onde o trabalho é claramente conjunto.
Responsividade à rutura e reparação da aliança — detetar e resolver tensões relacionais à medida que surgem.
Os psicólogos mais eficazes formam alianças mais fortes com uma variedade maior de pacientes, expressam mais dúvida profissional sobre si próprios, e dedicam mais tempo fora das sessões a praticar estas competências. Nenhuma delas substitui o conhecimento técnico, mas ajudam a explicar por que dois psicólogos formados no mesmo modelo teórico podem ter resultados muito diferentes com o mesmo tipo de paciente.
Segurança, empatia e limites
A relação terapêutica oferece algo raro na vida da maioria das pessoas: um espaço onde se pode falar sem medo de julgamento. Esta segurança não elimina o desconforto. É o que permite que emoções difíceis e memórias dolorosas possam finalmente ser exploradas, em vez de continuarem a ser evitadas. A empatia clínica sustenta este espaço: não é fusão emocional com o paciente, mas uma compreensão precisa e regulada, em que o clínico acompanha sem perder o seu próprio centro.
Ao mesmo tempo, a relação terapêutica é próxima, mas não é uma amizade; é calorosa, mas não é simétrica. Estes limites profissionais não afastam o paciente — permitem-lhe explorar a sua própria vida sem ter de cuidar da vida do terapeuta. É esta estrutura, paradoxalmente, que torna a relação um espaço seguro de crescimento.
A evidência empírica — e o debate que ainda persiste
O trabalho de John Norcross e do task force que coordenou trouxe rigor a esta discussão, classificando os elementos relacionais por nível de evidência. São considerados eficazes: a aliança em psicoterapia individual, a aliança em terapia com jovens, a aliança em terapia familiar, a coesão em terapia de grupo, a empatia e a recolha sistemática de feedback do paciente sobre o andamento da terapia. São classificados como provavelmente eficazes o consenso de objetivos, a colaboração e a consideração positiva. E são considerados promissores, mas ainda com evidência insuficiente, a congruência/genuinidade, a reparação de ruturas na aliança e a gestão da contratransferência.
Esta última categoria é importante: mostra que alguns dos conceitos mais valorizados clinicamente (incluindo alguns dos que a psicanálise identificou há um século) ainda não têm o mesmo lastro empírico quantitativo que a aliança ou a empatia. Isto não os torna menos relevantes na prática clínica; significa apenas que a evidência quantitativa ainda está a consolidar-se, num domínio historicamente difícil de medir.
Vale ainda a pena admitir que nem toda a comunidade científica está de acordo sobre até que ponto os fatores relacionais explicam os resultados da terapia. Investigadores como Pim Cuijpers têm sido mais céticos: apontam que nem todas as meta-análises apoiam o chamado modelo de fatores comuns, que muitos dos estudos incluídos têm problemas metodológicos, e que existem explicações alternativas para o facto de diferentes psicoterapias apresentarem resultados semelhantes. Este debate permanece em aberto na literatura. Uma síntese razoável, e cada vez mais aceite, é que a terapia eficaz resulta da interação entre técnicas baseadas em evidência e a relação terapêutica — os fatores relacionais criam o contexto para a mudança, mas não são suficientes.
O que o paciente pode esperar
Uma relação terapêutica saudável oferece consistência, confidencialidade e orientação genuína para o bem-estar do paciente. Mas oferece também desafio, não apenas conforto; e responsabilidade partilhada, não apenas apoio.
É dentro desta relação que muitos pacientes experienciam, talvez pela primeira vez, uma forma diferente de se relacionarem: com menos medo do julgamento, mais espaço para o desacordo, e a possibilidade real de reparar uma rutura em vez de a evitar. Este modelo relacional, vivido dentro da terapia, é frequentemente o que o paciente leva consigo para as relações fora dela. E é, afinal, aquilo que Freud, Jung, Adler, Winnicott, Kohut e Rogers, apesar de tudo o que os separava, sempre souberam.
Se procuras acompanhamento psicológico, conhece o meu percurso e forma de trabalhar aqui.
Referências bibliográficas
Bordin, E. S. (1979). The generalizability of the psychoanalytic concept of the working alliance. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 16(3), 252–260. https://www.semanticscholar.org/paper/The-generalizability-of-the-psychoanalytic-concept-Bordin/b9721dfddb365d12814a1cfbf4a060fa7613b920
Cuijpers, P., Reijnders, M., & Huibers, M. J. H. (2019). The role of common factors in psychotherapy outcomes. Annual Review of Clinical Psychology, 15, 207–231. https://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev-clinpsy-050718-095424
Gelso, C. J. (2011). The Real Relationship in Psychotherapy: The Hidden Foundation of Change. American Psychological Association. https://www.apa.org/pubs/books/4317239
Horvath, A. O., Symonds, B. D., & col. (2016 e trabalhos relacionados sobre a génese psicanalítica da aliança). Therapeutic Alliance and Outcome of Psychotherapy: Historical Excursus, Measurements, and Prospects for Research. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3198542/
Norcross, J. C., & Lambert, M. J. (2011). Evidence-based therapy relationships: Research conclusions and clinical practices. Psychotherapy, 48(1), 4–8. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21401280/
Padoan, C. S., Gastaud, M. B., & Eizirik, C. L. (2013). Objetivos terapêuticos para psicanálise e psicoterapia psicanalítica: Freud, Klein, Bion, Winnicott, Kohut. Revista Brasileira de Psicoterapia, 15(3), 53–70. http://rbp.celg.org.br/detalhe_artigo.asp?id=131
Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95–103. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22122245/
Sotier, M. (Jungian Directory). Analyst and patient — a análise como processo dialético em Jung. https://jungian.directory/dictionary/analyst-and-patient/
Stein, M. (2014). Jung as a pioneer of relational analysis. Jung Page. https://jungpage.org/learn/articles/analytical-psychology/943-jung-as-a-pioneer-of-relational-analysis7
Sá, F. C. (Psicanálise Clínica). Psicanálise e Winnicott: teoria, clínica e contribuições para a compreensão do self. https://www.psicanaliseclinica.com/psicanalise-e-winnicott/
Adler University. Alfred Adler: Vision and Lasting Impact. https://www.adler.edu/about/history/alfred-adler/
Fusco, G. (Simply Psychology). Adlerian Therapy: Key Concepts & Techniques. https://www.simplypsychology.org/adlerian-therapy.html
Winnicott, Kohut e a teoria da intersubjetividade: uma psicanálise do pertencimento frente à precariedade contemporânea dos vínculos. Cadernos de Psicanálise (CPRJ). https://cprj.com.br/imagenscadernos/caderno36_pdf/1_Winnicott-Kohut-e-a-teoria-da-intersubjetividade.pdf
Reddy, C. & col. The sister concepts of working alliance and real relationship: A meta-analysis. Psychotherapy Research. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/09515070.2023.2205103
Wampold, B. E. (2015). How important are the common factors in psychotherapy? An update. World Psychiatry, 14(3), 270–277. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/wps.20238